Pobre menino preto – Cynthia Rachel Esperança

 Pobre menino preto – Cynthia Rachel Esperança

Por Cynthia Rachel Esperança

Foto: Michael Aboya

Pobre menino preto – Parte I

Amanheceu na favela. Diferentemente de outras manhãs, essa era uma manhã de celebração. O menino-moleque-preto estava completando mais um ano de vida. Abriu os olhos, mas não conseguiu sair da cama. Ficou um tempo ali, deitado, só a olhar para o teto. Lembrou que tinha de ir trabalhar. Pegou o telefone celular, disse para o seu supervisor que não estava animado para as funções de trabalho. Este insistiu muito para o menino comparecer. Afinal de contas, já tinha uma festinha surpresa programada para o mascote-moleque-preto da empresa.

O menino, sem desconfiar de nada da surpresa, foi trabalhar. Nem atrasado o pobre menino chegou. Bateu o ponto. Sorriu com os colegas de trabalho. Recebeu todos os abraços, e foi para a rua cumprir suas entregas. Muito antes de findar o expediente, já estava de volta à empresa. 

Com bolas e bolo, o menino preto que completara dezessete anos, foi recebido.

Moleque-menino-preto chorão chorou muito. Esse era o seu primeiro emprego. A primeira festa feita por colegas que torciam pelo seu crescimento. O menino-tímido agradeceu e permaneceu na rodinha de colegas, na cozinha da empresa, comendo o seu bolo surpresa. 

Na volta para casa, cochilando no busão, o pobre-menino foi parado numa blitz. Sem ter o que temer, o menino suspirou e recostou a cabeça no vidro da janela do ônibus. Ouviu de longe, bem longe uma voz “acorda negão”. O menino que levantou às 5h15 da manhã teve dificuldade de entender o que os SENHORES GUARDIÕES PÚBLICOS estavam se dirigindo a ele. 

Depressa, o menino foi tratando de abrir a mochila, pegar carteira, abrir carteira. Meio atrapalhado. Pobre-menino-preto, não sabia o que estava acontecendo. Sua preocupação naquele momento era chegar em casa. Mesmo assim, o menino-preto teve que saltar do ônibus junto com outros homens-meninos-suspeitos-pretos. 

Homens-meninos-pretos cansados do corre e das coças. A abordagem policial vem sempre na hora errada, em corpos marcados pela história. Dos dez corpos negros retirados do ônibus, seis foram levados em viaturas para a delegacia. Entre os seis, Dayo Araújo da Silva, o pobre-menino-preto de dezessete anos completos.

Cynthia Rachel Esperança é carioca, moradora de Cascadura – subúrbio do Rio de Janeiro. Criou o Coletivo Encruzilhada Feminina de Arte Negra em 2018. Nele escreve, dirige e produz espetáculos teatrais. É professora de literatura do Instituto de Formação Humana e Popular – IFHEP e Especialista em Literaturas Africanas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, Brasil). Atualmente, é mestranda em Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF, Brasil). Redes sociais: @pretonopalco

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