Literaturas de Viagem: HAITI

 Literaturas de Viagem: HAITI

Literaturas de viagem, aqui, não é um gênero literário stricto sensu como o difundido a partir das grandes navegações do século XVI. Por outro lado, também não se resume a mapear roteiros de viagem catalogando os cenários de obras literárias. Transita entre a literatura, o jornalismo e a história e propõe o diálogo entre o leitor, que assume o papel de viajante, e as narrativas autoficcionais ou testemunhais dos escritores selecionados. O projeto parte de duas viagens: a primeira aos livros e a segunda, a pesquisa de campo para conhecer paisagens e pessoas!

Nosso objetivo não é catalogar casas de escritores ou paisagens ficcionais. Claro que as visitaremos, mas para além dos vestígios dos nossos escritores e seus escritos no tempo queremos encontrar seu lugar, suas raízes, sua gente. Nosso itinerário é a realidade cotidiana do outro narrado, do outro de quem nós nos aproximamos através da literatura antes de nos aproximarmos olho no olho ao colocarmos o pé na estrada.

Para acompanhar os itinerários de Literaturas de Viagem criamos categorias por ordem cronológica e localização geográfica, e subcategorias que registram os desdobramentos da viagem em reportagem, vídeo e/ou exposição. Assim, Literatura Comunica!

Edição 2015: Haiti 

Haiti é um país da América Central e que ocupa menos da metade de uma ilha no Caribe (a outra metade é da República Dominicana), marcado por uma história de independência e abolição da escravatura única no mundo e, atualmente, tem estreita ligação com o Brasil, pois nosso país chefia a Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (Minustah) desde 2004.

Em 2015, viajamos dos livros de escritores haitianos: País sem chapéu de Dany Laferriére; Love, Anger, Madness, de Marie Vieux-chauvet, e A Punta de Reventar, de Frankétienne, candidato ao Prêmio Nobel de Literatura em 2009. E também do livro Jacobinos Negros. Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domingos, do historiador caribenho Cyril Lionel Robert James, à pesquisa de campo no próprio Haiti.

Embora a fronteira do idioma (as línguas faladas lá são francês e crioulo hatiano) não impeça nossa aproximação, admitimos que existe grande dificuldade em encontrar tradução para o português de autores haitianos. O que colaborou para a exposição apresentar apenas uma mostra muito pequena da literatura daquele país.

Neste momento em que a chefia do Brasil na Missão de Paz da ONU no Haiti completa 11 anos e que há tantos casos de imigração de haitianos para o Brasil, a exposição reúne trechos de livros de escritores haitianos e imagens registradas em Porto Príncipe, Jacmel e Fonds Parisien. Procurando pensar a relação entre Brasil e Haiti, realizamos entrevistas com haitianos e brasileiros que transitam entre os dois países. Outro aspecto importante é a relação entre a ocupação militar no Haiti e as favelas cariocas, pois tanto o conjunto de favelas da Maré (2014) quanto o do Alemão (2010) foram ocupados com soldados que serviram na Minustah.

Assim, da literatura a história, nos aventurando pelo jornalismo, construímos nessa exposição itinerante um panorama ainda bem simples desse país que nos é cada vez mais próximo!

Curadoria: Miriane Peregrino

Cenotecnia: Bruno Serpa

Circulação: CEASM- Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – 14 a 20 de outubro de 2015;  IPN – Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos – 21 de outubro a 4 de novembro de 2015; e IFRJ – Campus de São Gonçalo – 09 a 30 de novembro de 2015.

EXPOSIÇÃO

Tem gente que perguntou: “Mas Haiti?“, e nós respondemos: “Por que não?!

Neste trabalho, estamos muito longe de dar conta da produção literária haitiana. Nosso objetivo é traçar um panorama, ainda que pequeno, de livros e autores haitianos desconhecidos para a maioria de nós e, através deles, lançar um outro olhar sobre o Haiti – país que tem sido pauta constante em nossos jornais desde que o Brasil assumiu a chefia da Missão da ONU no Haiti, em 2004, e, mais recentemente, por conta do crescente fluxo de imigrantes haitianos para cá.

A ideia aqui é sair do lugar-comum que a imprensa coloca o Haiti – o país miserável onde tudo falta – e olhá-lo e tentar entendê-lo a partir do que revelam seus próprios escritores.

*Lembramos que as informações aqui registradas datam de pesquisas realizadas até setembro de 2015 e elas só serão atualizadas no caso de futura reedição da exposição.

Escritores e obras selecionadas

marie e seu livro
  • Love, Anger, Madness – ou Amour, Colère, Folie na 1a publicação em 1969 – Amor, Raiva, Loucura é uma trilogia haitiana sem tradução para o português. O romance publicado em 1969, em francês, denuncia as condições em que vivem as mulheres na sociedade haitiana e faz críticas ao governo e seus métodos coercitivos. Em 2009, o livro foi publicado em inglês.

Marie Vieux-Chauvet é uma escritora haitiana que nasceu em Porto Príncipe, Haiti, em 1916 e faleceu em Nova York em 1973. Filha do político e embaixador Constant Vieux e de Delia Nones, uma mulher judia, Marie completou os estudos em 1933 e casou-se com um médico. Alguns anos depois, separou-se. Pierre Chauvet, um agente de viagens, foi seu segundo marido. Publicou seu primeiro romance em 1947, The Legend of flowers, usando um pseudônimo. Seus trabalhos mais conhecidos são Fille d’Haïti (1954), La Danse sur le Volcan (1957), Fonds des Nègres (1961) e Amour, Colère, Folie (1969). Através da literatura, Marie denunciou as opressões de gênero, cor e classe social no Haiti, abordando sempre a situação política, econômica e social de seu país durante a ocupação militar dos Estados Unidos (1915-1936) e a ditadura de François Duvalier, o ‘Papa Doc’.

franketienne e seu livro

Marie enviou os manuscritos de Amour, Colère, Folie para a escritora francesa Simone de Beauvoir que ajudou a publicar o livro em Paris pela editora Gallimard em 1969. No entanto, o livro foi considerado uma afronta ao governo de Papa Doc e temendo a ação dos Tontons Macautes (milícia paramilitar das ditaduras Duvalier) contra a própria escritora, sua família e parentes, Marie pediu que a editora interrompesse a distribuição do livro. Pierrre Chauvet comprou as edições que estavam no Haiti para impedir que circulassem e Marie se exilou em Nova York. O livro foi reproduzido em fotocópias e limitado a estudos universitários até que em 2009 foi feita uma nova edição da obra, dessa vez para o inglês. Infelizmente, nenhuma das obras de Marie Vieux-Chauvet tem tradução para o português.

Marie recebeu em 1954 o prêmio da Aliança Francesa por Fille d’Haiti; em 1960 o France-Antilles por Fonds des Nègres e em 1986 recebeu o Deschamps por Amour, Colère, Folie

  • A Punta de Reventar – no título original, Mûr à crever, é uma obra publicada em 1968, em Porto Príncipe. Com o título A Punta de Reventar o livro teve sua 4a edição em 2008, publicada em espanhol, no Chile. Trata-se de uma história ambientada nos anos de 1960 e que descreve o drama de uma sociedade segregada e oprimida. Aborda temas como migração, prostituição e racismo.

Frankétienne é um escritor, poeta, dramaturgo, pintor, músico, ativista e intelectual que nasceu em Ravine-Sèche, Haiti em 1936 quando sua mãe tinha apenas 14 anos. Foi abandonado pelo pai, um rico e branco industrial norte-americano, e cresceu com sua mãe no bairro de Bel Air, em Porto Príncipe. Era o irmão mais velho de oito irmãos. Foi comerciante, e com esforço conseguiu frequentar a escola (como a educação no Haiti é privada, ou seja, não existe escola pública, geralmente, numa família de oito irmãos como a de Frankétienne, apenas, e ainda assim com sorte, um filho é enviado ao colégio). Começou a publicar poesias em 1964, eram os primeiros anos da ditadura dos Duvalier e enquanto muitos deixam o país indo para o Canadá, França e África, Frankétienne decidiu ficar. Sua obra tem forte relação com a história recente do Haiti. Suas obras mais conhecidas são Au Fil du Temps (compilação de poemas), Ultravocal (novela), Pelin Tet-Play (escrito em crioulo haitiano) e Mûr à crever (novela). A novela Dézafi é o primeiro romance escrito em crioulo haitiano na história da literatura haitiana.

Em 2011, Frankétienne foi reconhecido como o “pai das letras haitianas” pelo The New York Times. Foi candidato ao Prêmio Nobel de Literatura em 2009 e nomeado Artista UNESCO para a Paz em 2010. Apesar disso, também não encontramos obras de Frankétienne traduzidas para português.

dany e seu livro
  • País sem chapéu – romance autobiográfico, onde Laferrière conta a história de um escritor que retorna ao seu país depois de mais de 20 anos de exílio. Entre presente e passado, ele redescobre o Haiti ao mesmo tempo que apresenta o cotidiano e as tradições de seu país ao leitor.

Dany Laferrière é um jornalista, escritor e roteirista haitiano que nasceu em Porto Príncipe, Haiti. Seu pai era um exilado político e deixou o país durante a ditadura de François Duvalier, conhecido como ‘Papa doc’. Laferrière foi cronista da revista Le Petit Samedi Soir e na rádio Haïti-Inter até que em 1976 seu amigo, o jornalista Gasner Raymond, foi assassinado pelos Tontons Macaute (milícia paramilitar a serviço das ditaduras Duvalier). O Haiti vivia então sob a ditadura de Jean-Claude Duvalier, o ‘Baby Doc’, filho e sucessor de Papa Doc. Laferrière decidiu, então, exilar-se em Montreal, no Canadá. Retornou ao Haiti em 1979 por apenas seis meses e mudou-se novamente, dessa vez com sua companheira, Maggie, com quem teve três filhos. Trabalhou como operário em Montreal e em 1985 publicou seu primeiro romance: Como fazer amor com um negro sem se cansar.  A obra foi adaptada para o cinema e traduzida para vários idiomas, inclusive o português. Em 2009, Laferrière recebeu o Prêmio Médicis por seu romance L’Énigme du retour, e em 2013 foi eleito para a Academia Francesa.

Em 2015, Laferrière participou da mesa “O avesso da pátria” na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty. Anteriormente, o escritor esteve no Brasil em 2006 para participar da 19a Bienal do Livro de São Paulo e, em 2007, no congresso da Associação Brasileira de Estudos Canadenses realizada em Salvador.

Haiti para além dos livros

DOCUMENTÁRIO: No Jogo da Paz

Sinopse: A narrativa sobre a imigração de haitianos para o Brasil é construída a partir de entrevistas realizadas com haitianos e brasileiros que vivem em trânsito entre os dois países e é alternada com trechos de livros de três escritores haitianos: Marie Vieux-Chauvet, Franketiénne e Dany Laferrière. O tema e o dilema da imigração haitiana são marcados pela chefia do Brasil na Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti – MINUSTAH -, as catástrofes de 2010 que agravaram a situação de pobreza da população – o terremoto e a epidemia de cólera – e a incerteza do futuro do Haiti após 11 anos de intervenção militar. As imagens foram realizadas no Haiti, no Rio de Janeiro e em Sâo Paulo durante abril e maio de 2015.

Duração: 10:00

Direção: Miriane Peregrino

Entrevistados: Alixis Georges, Emerson, Fedo Bacourt, Miguel Borba de Sá, Pedro Braum, Polgens Gege, Robenson Desruisseaux, Veríssimo Jr e Yves Pierre

Roteiro: Miriane Peregrino e Igor Ferraz

Animação: André Gavazza

Narração: Migne-Yolande Etienne e Mariana Nunes

Imagens e som: Miriane Peregrino

Montagem: Igor Ferraz

Tradução: Felipe Silva e Robert Montinard

Produção: Eric Fenelon, Felipe Silva e Miriane Peregrino

Apoio: Curso de Comunicação Popular 2015 do NPC – Núcleo Piratininga de Comunicação.

REPORTAGENS: Brasil x Haiti

“Brasil x Haiti: do jogo da paz ao jogo da pacificação” é uma série de reportagens dividida em cinco partes que destacam a relação entre os dois países. Discutem o aumento do fluxo migratório de haitianos para o Brasil após nosso país assumir a chefia da Missão da Onu (Minustah) e que se intensificou em 2010 depois do terremoto e da epidemia de cólera que assolaram o Haiti.

Parte 1 – A Missão da ONU no Haiti

Parte 2- Do Haiti para as favelas cariocas

Parte 3- Haiti: Eleições 2015

Parte 4- Preconceito contra haitianos gera onda de violência no Brasil

Parte 5- Um haitiano de Bel Air na favela da Maré

*As partes 4 e 5 tiveram versão impressa no Jornal Vozes das Comunidades, p. 8, setembro de 2015.

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