Lado de Cá: Itaboraiense cria jornal que reúne diários de brasileiros na pandemia

 Lado de Cá: Itaboraiense cria jornal que reúne diários de brasileiros na pandemia

Reportagem publicada originalmente em 21.08.2020 no Lado de Cá.

Por Marcos Vinícius

Nascida em Vendas das Pedras, em Itaboraí, onde passou boa parte de sua infância e doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Miriane Peregrino decidiu reunir relatos de brasileiros que viviam a pandemia do novo coronavírus em diferentes locais em um jornal literário e criou o “Diários de Emergência Covid-19”.

Miriane começou a levar sua paixão pela leitura para além das salas de aula da UFRJ, onde fez doutorado em Literatura de 2015 a 2019. Na época, sua preocupação era levar a leitura a um nível em que fosse possível alcançar camadas diferentes da sociedade, e criou, em 2013, a ‘Literatura Comunica!’, onde escolas públicas, bibliotecas, favelas do Rio e países como Angola e Moçambique, pudessem receber o ‘Rodas de Leitura’.

Com o sucesso do projeto ‘Rodas de Leitura’, Miriane decidiu apostar na criação de um jornal literário colaborativo. “Ano passado fizemos dois números sobre os seis anos das rodas de leitura, com relatos de participantes das oficinas realizadas no Brasil, Angola e Moçambique”, revela.

Tudo corria bem e o ‘Literatura Comunica!’ teria nesse ano um jornal de poesia falada, quando a pandemia estourou em março paralisando a produção e mudando a pauta central. “Naquele momento, o trabalho não parecia mais fazer sentido. Falar de poesia falada agora? Com saraus e slams cancelados? Fazer um jornal que não vamos imprimir e fazer circular como fizemos ano passado? Foi preciso admitir que tudo pareceu perder a importância e o sentido”, relembra.

Sem saída, em virtude do isolamento social, ela constatou que seria impossível resistir ao confinamento sem arte e cultura. Mas, se os leitores perderam edições do ‘Literatura Comunica!’, ganharam uma edição especial chamada ‘Diários de Emergência Covid-19’, que traz narrativas divididas em três números: ‘Brasileiros no Exterior’; ‘Brasil, Norte a Sul’ e ‘Rio de Janeiro’.

“Algumas pessoas retomaram o hábito de escrever cartas, relatos diários. Falaram que escrever os diários ajudava a reduzir a ansiedade, foi um processo também terapêutico. Recebemos 60 textos, de brasileiros de diferentes lugares do mundo com histórias e vivências diferentes na pandemia”, relata.

Segundo Miriane, moradora da cidade de Mannheim, no estado de Baden-Württemberg, na Alemanha, o jornalista e escritor brasileiro Lima Barreto, a alemã de origem judaica Anne Frank, e a escritora mineira Carolina de Jesus, foram fundamentais para desenvolver a ideia do ‘Diários de Emergência Covid-19’.

“Lembrei de Lima Barreto, no período em que ficou internado no Hospício Nacional dos Alienados no Rio de Janeiro, dos escritos de Anne Frank, confinada com a família dela escondida dos nazistas no período da Segunda Guerra e os diários de Carolina de Jesus, o ‘Quarto de Despejo’, diário de uma favela. Lembrei desses diários e isso influenciou a ideia de fazer esse projeto acontecer”, finaliza.

 

 

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