Carolina Maria de Jesus em Nós

 Carolina Maria de Jesus em Nós

Mariana Nunes, de mochila, em visita a exposição “Carolina em Nós”. Museu Afro Brasil, São Paulo. 24 de janeiro de 2016. Foto: Pâmela Peregrino

“Antigamente o que oprimia o homem era a palavra calvário; hoje é salário.”
(Carolina Maria de Jesus)

“A linguagem nunca é neutra.”
(Paulo Freire)

“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”
(Darcy Ribeiro)

Por Mariana Nunes

Quem lê Carolina logo percebe que não será a/o mesma/o após a leitura. Carolina não deixa. Ela é forte e presente, sua escrita nos arrasta junto dela para um lugar onde a crítica é condição primeira e ponto de partida. Aos 107 anos do nascimento de Carolina Maria de Jesus é preciso comemorar e afirmar que a classe trabalhadora pode reconhecer nela uma representante nas artes e na vida.

Meu primeiro contato com Carolina se deu em uma conversa entusiasmada com uma amiga educadora popular, que na defesa da importância da obra e da difusão dessa leitura me proporcionou tomar conhecimento de uma literatura por mim ainda inexplorada, assim como para muitas/os brasileiras/os. Li os primeiros livros: “Quarto de despejo: diário de uma favelada” (1960) e “Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada” (1961) e me emocionei com aquela narrativa intensa, pois Carolina é dada a não ter vergonha das suas batalhas, descreve a nu e detalha suas dificuldades. Nesses livros, a escritora narra seu cotidiano em diário com lucidez, ainda que a fome por vezes a quisesse dominar, e desenvolve ali diferentes ganchos que capturam nossa atenção, como quando narra a vida na favela, a situação de mãe solteira, mãe sozinha, a condição de mulher negra, o racismo, o machismo e a misoginia que atravessam suas relações cotidianas, a migração, sobretudo nordestina, mediante a busca por inserção no mercado de trabalho e melhores condições de vida, o direito à moradia, a condição de mulher trabalhadora e provedora do lar e dos filhos que marcam a obra.

Com toda sua sensibilidade e dureza, Carolina, traz à luz reflexões do seu momento histórico e de um território específico – a favela do Canindé – São Paulo dos anos 50 em diante, mas quem a lê hoje terá a sensação de uma terrível atualidade nos temas tratados como a carestia dos gêneros alimentícios e a falta de políticas públicas para o conjunto da classe trabalhadora. Denunciava a desigual e impositiva forma das relações familiares e dentre outros apontamentos sinalizava o abismo da desigualdade social o qual se encontrava o país. Usando de linguagem prática e potente, conhecendo tão bem o poder das palavras, utilizava-as de forma que fosse possível às/aos leitora/es, mais variadas/os o alcance imaginativo necessário a quem não sabe o que é a fome, a miséria e a opressão.

A oportunidade de visitar o Museu Afro Brasil, localizado no Parque Ibirapuera em São Paulo, e conhecer a exposição “Carolina em Nós” veio logo a seguir, quando o Jornal Literatura Comunica! recebeu o prêmio “Todos Por Um País de Leitores” por edital do extinto Ministério da Cultura. O projeto, promovendo ações de incentivo à leitura e literatura brasileira, organizou uma atividade cultural onde, um grupo de pessoas – por volta de 35 a 40 – de diferentes favelas e periferias do Rio de Janeiro tiveram a oportunidade de estreitar contato com as obras de Carolina Maria de Jesus, como livros publicados em diversos idiomas e países, além de fotografias, painéis, papéis diversos e anotações pessoais, cenários montados nas paredes do prédio e tantas outras memórias dedicadas à vida e obra de Carolina pautando-a como importante nome da literatura brasileira. Havia também, no espaço, exposições permanentes com coleção especializada em escravidão, pinturas, esculturas, fotografias e demais materiais que abarcavam aspectos religiosos, artísticos, tecnológicos, de trabalho e diversas outras contribuições advindas da influência de negras e negros de origem africana na formação do Brasil. Vimos também peças utilizadas para aplicação de castigos e réplicas de barcos usados no translado de pessoas aprisionadas e escravizadas que eram trazidas para nossos portos: uma verdadeira imersão no passado que, sob certa medida, ecoa nos dias que vivemos hoje.

E Carolina era a razão de estarmos ali. Ela que foi audaciosa ao enfrentar e recusar o que a sociedade enraizada nas práticas colonialistas, racistas e patriarcais, havia querido e posto a ela: catar o lixo da cidade e voltar relegada ao seu “quarto de despejo” na favela do Canindé ou onde quer que pudesse estar desde que não tornasse a incomodar com a sua crítica afiada. Agora lembrada e exaltada entre nós como importante escritora que foi e pelo legado literário, artístico e de resistência que nos deixa.

Carolina, que aos 7 anos ingressou no Colégio Allan Kardec, de orientação espírita, manteve desde então o hábito de ler e escrever muito, no entanto, cursou apenas até o 2º ano do ensino básico, fato que influenciou na sua escrita que se constituiu afiada e de linguagem marginal, sendo por isso ainda hoje julgada no campo literário e excluída até recentemente no campo hegemônico das artes. Precisou largar a escola cedo e trabalhar. Aqui, lembro imediatamente de minha mãe, também Maria, que por caminhos – em parte similares ao da escritora – teve seus estudos interrompidos, e ela também negra e filha de mãe negra, só pôde concluir os estudos já na vida adulta. Foi um diploma batalhado e cheio de esforço de seguidas noites de aula depois de longas jornadas de trabalho. Um grande feito dela como de muitas dessas mulheres trabalhadoras que revelam que a pouca escolaridade não é uma escolha, mas sim uma imposição da burguesia à nossa classe. Lembro sempre de uma frase que ouvi na adolescência: “É triste, mas filho de pobre não estuda, trabalha” e essa frase me deu a dimensão do abismo social, econômico e político em que estava inserida, afinal as elites do nosso país sucateiam e atacam principalmente a educação pública de forma que se mantenham as estruturas de opressão capitalista.

Em uma sociedade em que o povo pobre, sobretudo as mulheres trabalhadoras, as mulheres negras, historicamente foram e são impedidas de se expressar com sua própria voz e desenvolver-se intelectualmente, faz-se urgente mantermos a bandeira da educação em movimento e acirrarmos a defesa de uma educação pública de qualidade e emancipadora, onde a Literatura seja tratada como direito humano, uma vez que considerada “necessidade universal na nossa formação material e imaterial, construindo e reconstruindo nossa humanidade e consciência” tal qual enunciado por Antônio Candido, sociólogo, crítico literário e professor que também afirma: “A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade e o semelhante” (CANDIDO, 2004).

Carolina é exemplo dessa literatura que transforma e partindo disso pauta a mulher trabalhadora como agente de transformação e de crítica da sociedade em que vive, e não só como objeto de análise exótica ou quaisquer que seja.

DOUTORA CAROLINA MARIA DE JESUS

No dia 25/02 deste ano, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu, em homenagem póstuma, o título de Doutora Honoris Causa à escritora Carolina Maria de Jesus, concedido pelo Conselho Universitário (Consuni) em aprovação unânime e por aclamação. Tal título exalta sua capacidade e importância literária já devidamente reconhecida nas mais de 50 teses e dissertações acadêmicas, segundo o portal de publicações acadêmicas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

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CANDIDO, A. “O direito à literatura”. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades / Ouro sobre Azul, 2004.

MARIANA NUNES é de Nova Iguaçu, estado do Rio de Janeiro. Feminista, integra o Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro e o PCB. É graduanda em Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF, Brasil). Em 2016 integrou o grupo de visita à Biblioteca Carolina de Jesus do Museu Afro Brasil, atividade organizada pelo Literatura Comunica com apoio do Prêmio Todos Por Um Brasil de Leitores.

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