Rio Poetry Slam: a edição das poetas negras

 Rio Poetry Slam: a edição das poetas negras

Por Nadja Domingos

A 8° edição do Rio Poetry Slam, em 2019, foi sem dúvida, a edição das poetas negras e é dela que queremos lembrar pois, até agora, essa foi a última edição com aglomeração no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR). A última que nos foi possível cobrir pessoalmente. Depois veio a pandemia, tudo foi interrompido, mas também remodelado.

A edição histórica de 2019 ocorreu em outubro e contou somente com a participação de mulheres negras. A competição internacional faz parte da programação anual da Festa Literária das Periferias (FLUP) desde 2014. Tradicionalmente a festa acontecia nas favelas do Rio de Janeiro, espaços excluídos da agenda da maioria dos eventos literários, no entanto, naquela ocasião, foi realizada no Centro da cidade, na região conhecida como Pequena África.

Ao trazer o evento para a região que, no início do século XX, teve forte protagonismo de mulheres negras como Hilária Batista de Almeida, anfitriã do samba, mais conhecida como Tia Ciata, a Flup amplificou as vozes das mulheres negras e trouxe um reencontro com suas raízes ancestrais. Mulheres negras chegaram de vários países expressando seus anseios, luto e luta através da oralidade, uma tradição africana que tem como objetivo preservar a cultura africana, trazendo temas como: religião, discriminação de gênero, migração, racismo, entre outros.

Roberta Estrela D’Alva, responsável por trazer o Slam para o Brasil em 2008 com o concurso Zona Autônoma da Palavra (ZAP) e slammaster do Rio Poetry Slam, falou sobre o porquê de a competição ter somente participantes negras naquela edição: “Essas vozes são as vozes que mais precisam ser ouvidas. As vozes das pessoas negras não são ouvidas no Brasil, imagina as vozes das mulheres negras? Esse evento tem haver com a urgência de colocar a voz dessas mulheres para serem ouvidas.”

Selfie com Roberta Estrela D’Alva na Flup 2019. Foto: Nadja Domingos

Para a slammer Lúcia Tite de Moçambique, a competição é muito chamativa e importante para dar visibilidade a essas mulheres que são deixadas historicamente à margem da sociedade: “Todas as mulheres que participaram do concurso sentiram-se honradas. É uma forma de valorizar as mulheres e acima de tudo as mulheres negras. Querem mostrar que nós temos força e que devemos sempre nos revoltar contra os males.” Ainda que seja uma competição, é interessante ressaltar que para a maioria das participantes o prêmio é o que menos importa.

A poeta portuguesa Raquel Lima, que tinha acabado de lançar seu áudio livro Ingenuidade, inocência e ignorância em São Paulo, disse na ocasião que o evento abria uma possibilidade de criação de uma rede de fortalecimento de mulheres negras, mapeando os lugares que frequentam e suas escrevivências (conceito da escritora brasileira Conceição Evaristo). Disse Rachel Lima: “O prêmio é um artificio que faz parte do formato, mas é o menos importante. Não acho que seja mais importante ganhar, o importante é o encontro, a partilha e conhecer outros colegas”.

Rachel Lima e Nadja Domingos na Flup 2019

A mineira Pieta Poeta, vencedora do prêmio Rio Poetry Slam 2019 escreve poesias desde criança, mas começou a participar de competições a partir de 2014. Segundo ela, o evento permitiu conhecer artistas de vários lugares: “Estar no meio de um monte de mulher preta falando sobre si, sobre o que perpassa as experiências delas foi inspirador.” Pieta trouxe temas da atualidade como: gordofobia, kit gay, Fake News, que arrancaram muitas palmas e até risos da plateia reunida naquele dia no MAR.

Em um grito de resistência foram proferidas poesias sobre migração, a dificuldade de nascer em um país e morar em outro e, ao mesmo tempo, não pertencer a nenhum dos dois lugares. Temas como as curvas da mulher negra e sua objetificação, críticas ao sistema capitalista e ao fundamentalismo religioso. A poesia falada é um instrumento de expressão que coloca as minorias como protagonistas e contadores das suas próprias histórias e como um fio conecta as identidades dos ouvintes.

Em uma junção de cultura artística, política e performance, o Slam se torna um lugar de debate, entretenimento, de escuta e também de cura ao dialogar diretamente com as favelas do Brasil. Além disso, é importante dizer que a FLUP, organizadora do evento, oferece um curso de formação de escritores que resultou na publicação de 20 livros de autores negros periféricos, entre eles: Ana Paula Lisboa, Yasmin Thayná e Geovani Martins, esse último teve seu livro traduzido em mais de 10 países.

Se é difícil ser jovem e periférico, ser mulher negra e da periferia envolve opressões em diversas esferas sociais. Ao unir a agenda das mulheres negras com o Rio Poetry Slam abriu-se a oportunidade de se construir novos caminhos para essa geração de jovens negras e periféricas. Amplificar as vozes dessas mulheres, que já há tanto tempo vem lutando por seu espaço na arte, é viabilizar a construção de uma rede de apoio onde as que sobem possam estender as mãos e puxar as outras.

*A reportagem faz parte do especial “Poetry Slam em Tempos de Coronavírus” do Jornal Literatura Comunica, Ano 3, N. 8, Abril a Junho 2021, p. 21.

NADJA DOMINGOS é imigrante angolana, jornalista, graduanda em Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ, Brasil) e proprietária da Nadom, uma marca sustentável que gera mudança, impactos positivos ambientais e sociais com suas práticas, produtos e cultura. Rede social: @nadjandomingos

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